terça-feira, janeiro 27, 2009

Relato de uma manhã

Ontem de manhã.
Pouco mais de duas horas no hospital, suspeita de uma conjuntivite na Alice.
Calor a mais, em todo o lado, totalmente impróprio para grávidas.
Grávida esquecida do calor que ali faz, com filha de três anos pela mão e com casaco dela, mala dela, cachecol dela, casaco da filha, camisola da filha, papéis das urgências para a oftalmologia e receita da oftalmologia no outro braço e mão.
Filha a desafiar a paciência da mãe a partir de determinada altura e a decidir fazer exactamente o oposto de tudo o que a mãe lhe diz para fazer.
Mãe a roçar a vergonha de que terceiros possam pensar que não dá educação à filha.
Médica das urgências: «Pronto, afinal era mesmo conjuntivite, nada de grave.» (ar de: pode-se ir embora, está tudo tratado, tem aqui a receita e pronto, é só pagar)
Mãe: «E posso deixá-la na escola?!» (é claro que não, já estou farte de saber disso, mas ok, uma pessoa faz-se de palerma)
Médica: «Ah, isto de facto é contagioso... mas isso depende dos infantários... há aqueles que fecham os olhos e aqueles que são mais picuinhas e não deixam os miúdos lá estar...»
Mãe, sem paciência nenhuma e com vontade de fazer «Dãa» à médica, mas a fingir muito bem uma paciência que não tem: «Ah, e a doutora passa uma declaração a dizer que não há problema nenhuma em deixá-la na escola?»
Médica: «Ah pois, não posso fazer isso, porque isto de facto é um bocadinho contagioso...» («Dãa»)
Mãe: «Pois doutora, mas sabe, se eu a deixar lá e depois me disserem para a ir buscar, eu não posso tirar dias para ficar com ela em casa...»
Médica, com ar de quem descobriu a América: «Ah, então eu passo-lhe uma declaração para ficar com ela...»
Mãe: «Pois, mas tem de ser naquele impresso próprio porque eu sou funcionária pública.»
Médica: «Não posso, sabe, não sou convencionada com a ADSE.»
Mãe: «Em relação a isso não há problema, eu também não tenho ADSE, tenho ..., preciso mesmo é da declaração nesse impresso se não não me aceitam os dias... não há problema, eu já levei o impresso daqui deste hospital.»
Médica: «Mas eu não sou convencionada pela ADSE, não posso passar...»
E teríamos ficado pela conversa de surdos se um outro médico, dentro das cortinas, mais informado (se não mais competente) não tivesse dito em voz mais alta que sim, que ela podia passar o impresso, que o hospital era convencionado e ela não precisava de ser, que no consultório privado é que não podiam se não fossem... Justificação da médica: «Ah, é porque no outro dia tive um casal a dizer que isto não lhes servia de nada...»
Como disse uma amiga da mãe, sorte a de não ter aparecido um casal a dizer: doutora, se daqui a uns dias aparecer uma mãe loira com olhos azuis a pedir um impresso destes, é para lhe cortar os pulsos...
Rita

6 comentários:

Alma Minha disse...

Mas afinal é assim tão complicado???
Já algum tempo que não fico de "Baixa"... mas afinal que impresso próprio é este? Não é um atestado?
Desculpa a minha ignorância, mas nunca se sabe quando vou estar a mesma situação...

Beijo e as melhoras para a Alice

Pocahontas disse...

Desejo as melhoras para a minha sobrinha linda.
Um grande beijinho

Oficinas RANHA disse...

Alma Minha,
Os funcionários públicos agora, quando lhes é dada baixa, têm de apresentar um modelo próprio para o efeito. Não são eles que os têm, são passados: pelos hospitais públicos ou centros de saúde, ou ainda pelos hospitais e médicos privados desde que convencionados pelo subsistema de saúde ao qual pertencem (ADSE ou outro, como no meu caso). Se fores a um médico privado não convencionado, ele passa-te uma declaração para ires ao centro de saúde e aí, sim passarem-te baixa no dito modelo. Faz muito sentido andar de um lado para o outro, tendo em conta que as pessoas estão doentes ou a acompanhar familiares doentes... não se percebe, mas foi daquelas medidas que só vieram atrapalhar (como quase todas as deste governo, mas isto já é comentário político da minha parte, eheheheh)...
Beijinhos, Rita

É verdade, a todos, inclusive a ti, querida cunhada: a Alice está mais que fresca, descobrimos logo de início ou teve sorte com a conjuntivite, é fraquinha...
Rita

Joana disse...

Isso lembra-me a história de um amigo meu que ao regressar de viver 4 anos na Suiça foi à Segurança Social resolver e tratar da usa situação. Depois de várias idas e de falar com múltiplas pessoas em departamentos variados, dos quais obteve sempre informações diferentes, mas nenhuma garantia de que aquela era a correcta, acabou por se virar para uma pessoa suspirar e dizer: "O problema é que voçês não fazema a mais pequena ideia do que é um serviço eficiente. Nunca viram nenhum e por isso não é possível terem um serviço eficiente." Pitoresco, e o que nós dizemos...
As melhoras! Bjs

Anónimo disse...

ahahahhahahahahhahahahahahha....
isto sou eu a rir-me a bandeiras despregadas pq me fizes-te lembrar as minhas idas ao médico/hospital. Só mesmo rindo.... porque é incrivel termos que nos fazer passar por parvas (nós mulheres lindas e inteligentes) só para termos aquilo a que de facto temos direito (eu também ja tive que perguntar no hospital, conhecendo perfeitamente a resposta: então e pode ir ao infantário? Não? então preciso de uma declaração. resposta: áh então tem q ir ao médico de familia pq o hospital -PUBLICO- não pode passar isso, tipo: vá dar um passeio que lhe faz bem ggggrrrrr). às vezes parece que estamos a pedir uma coisa completamente ilegal e sinto-me muitas vezes constrangida a pedir as tais declarações para poder ficar em casa a CUIDAR DOS MEUS FILHOS. Fico sempre com a sensação que os médicos olham pra mim e pensam: "pronto mais uma que quer ficar em casa à pala da declaração" - então mas não são eles que dizem que tá doente? contagioso? o que quer que seja que precisam de cuidados? è que eu não tenho uma ama pra ficar com eles em casa como a maioria dos médicos..... Enfim!!!! é o país que temos :((((

Anónimo disse...

bem fico tão chateada com estas declarações que me esqueci de assinar o meu coment anterior:
Bjos
D