terça-feira, março 27, 2007

Um adeus

Fazemos e refazemos as contas e chegamos à conclusão que foi em Junho ou Julho últimos que lhe falaram na massa que tinha no estômago ou esófago, já nem sei bem. A doença que tinha ameçado miná-la há dezoito anos, e que ela tinha vencido, voltara. Em Novembro ficámos a saber que nada adiantaria, as malditas células tinham-se reproduzido assustadoramente. E desta vez, ela não lhe ia ganhar.
A nossa Tia Alcide partiu este domingo. Em seu lugar deixou-me uma imensidão de recordações a que me tento agarrar, e um pânico muito íntimo, que ouso confessar aqui, de me vir a esquecê-las. Da suavidade maravilhosa da sua pele muito cor de rosa, que não podia apanhar sol. Do tom de voz com que atendia o telefone, que precisava sempre de um abanão. Do falar sozinha constante, que ela não gostava que presenciássemos e por isso eu me escondia em miúda, para poder ver. Do mau génio. Da lembrança dos croissants que ela queria sempre que eu trouxesse nas viagens de volta a Lisboa e que eu fui dispensando, para depois vir a lamentar o privilégio perdido. Das dezenas de vezes que se levantava quando estávamos à mesa e da forma de nos perguntar, a nós, mulheres da família, se os nossos companheiros queriam mais. Da forma infindável de contar as suas histórias, encadeadas umas nas outras, «lá vem o Saramago», dizia o meu pai. Da maior falta de sentido prático que eu alguma vez conheci, as carradas de roupeiros quase vazios e ela sempre a queixar-se da falta de espaço. E tanto, tanto mais que não está aqui e não estará nunca em lugar nenhum que não em nós...
Há pouco falávamos do medo que temos que, de tanta rispidez trocada em algumas discussões, ela pudesse ter alguma vez duvidado do importante e amada que era para nós. É que a nossa Tia Alcide era uma pessoa que enchia a casa, as nossas férias, a nossa família, já de si tão pequena.
E por muito que saibamos que nada há a dizer ou a fazer e que a vida é assim, subsiste o sentimento de que a nossa ficou bem mais pobre.

Rita
Ana Cristina

quinta-feira, março 22, 2007

A continuação da saga

A Alice partiu a cabeça. Galgou um armário na creche, puxou por um cabo de uma coluna e esta caiu-lhe em cima, de esquina armada.
No hospital fui encontrar uma educadora com uma expressão assustada («quando a vi, tinha tanto sangue na cara que nem lhe via o olho, mas ela já não chorava!») e uma filha com um corte pequeno, a querer percorrer os corredores a correr... Nada preocupante, Betadine e pele plástica, «não lave a cabeça hoje e amanhã quando lavar não use água muito quente», atenção aos sinais de traumatismo.

As perguntas que se impõem: porque razão os profissionais que trataram a Alice não se apresentaram?! Um «boa tarde, eu sou o enfermeiro x ou a dra. y» era bom de ouvir e eu pelo menos saberia como tratá-los... E está bem que na creche se enganaram na Alice e o papel da urgência foi passado noutro nome, mas isso não é motivo para não entender o pânico em que as pessoas devem ter ficado. Então porque razão o «obrigado pela sua compreensão, outros fariam quase um escândalo» do administrativo do hospital?! Entendemo-nos pouco, caramba. E esquecemo-nos muito que o dia de trabalho tem demasiadas horas para toda a gente e que por isso existem falhas, não só nos nossos dias de trabalho...

O importante é que assim que chegámos a casa tive de dar um açoitezito à Alice para não subir à mesinha de centro. Está fina.
Rita

quarta-feira, março 21, 2007

Dualidade maternal

Primeiro facto:
A Alice está - e julgo que a palavra adequada é mesmo aquela que me vem logo à cabeça - intrépida. De repente parece ter redobrado a energia e passa o tempo a correr de um lado para o outro, a gritar e a desafiar-nos. Ontem de manhã, em menos de uma hora, que é o tempo que medeia o seu acordar e a nossa saída de casa em conjunto, conseguiu aprender a técnica de subir para o sofá e para a mesinha de apoio e fê-lo dezenas de vezes para se aperfeiçoar. Na febre alpinista, dei com ela a tentar subir pelo conjunto de gavetas da cozinha, agarrada ao tampo de granito.
Fica tão impossível depois do seu gasto diário de infatigabilidade, que andamos a deitá-la antes das 20H30.

Segundo facto:
Interrogo-me se alguém poderá pensar que a minha filha de dezanove meses é vítima de algum tipo de violência. Neste momento tem: várias nódoas negras nas pernas, o lábio superior inchado e com uns grandes arranhões provenientes de uma queda no Domingo, um corte pequeno no lábio inferior, de uma queda na Segunda-feira e um hematoma na cara envolvendo parte da testa e lado do olho, de uma queda na Terça-feira.

Conclusão:
Olho para a Alice, a minha pequena bárbara de caracóis loiros, olhos azuis e pele clarinha, e sei que, ao mesmo tempo que a sua teimosia tem capacidade de me enfurecer em segundos, não sou capaz de deixar de sentir um enorme orgulho na sua temeridade, destreza e independência.

Rita

sexta-feira, março 16, 2007

Parabéns Cristina!

A Cristina, minha irmã mais velha, amiga de todas as horas, companheira deste blog, destas nossas Oficinas e de vida, faz hoje anos.
Nem todos devem e podem saber, mas eu posso jurar que ter irmãos é uma das melhores coisas do mundo. Pelo menos, é-o no meu mundo. E quem me conhece, sabe que não minto, basta contar a quantidade de vezes que a expressão «a minha irmã» me sai pela boca fora durante o dia. Ela também sabe e por isso é difícil dizer-lhe aqui algo inovador.
Tenho um orgulho enorme na minha irmã. Na pessoa que ela é. E tenho um orgulho maior ainda de a saber minha irmã.
Rita


Sinto-me um nadinha triste por não ter conseguido fazer a prenda que queria para ela. Sinto-me muito contente porque, daqui a umas horas, partimos todos para o Alentejo passar um fim de semana de comemoração. As três famílias que são uma só.

quinta-feira, março 15, 2007

Os quatro anos da Fera

A nossa Fera faz hoje quatro anos.
Eu passei o dia a pensar no texto que ia aqui escrever em sua honra quando chegasse a casa... mas a verdade é que acordei tão cedo, viajei tanto e sinto-me tão cansada que não consigo lembrar-me de nada... De qualquer forma, como acho que melhor presente do que palavras é deixá-la dormir comigo no sofá e mimá-la até cairmos as duas para o lado... até amanhã.
Rita

quarta-feira, março 14, 2007

Receita

Um miúdo ruivo e duas outras, já conhecidas, a que é também do prédio e que ofereceu batatas fritas e a enérgica de caracóis e sorriso simpático. Dois mais velhos, o primo da primeira e a irmã da segunda. As mães de todos, sentadas no muro, a de olhar suave afastada das outras e as outras, a de olhos muito azuis, a do prédio, com os ganchos e a irmã dela, que veste sempre de escuro. Baloiços. Duas bolas. Mais alguns miúdos, sem mães, inclusive o mesmo de há uns meses atrás. Um adulto e um jovem a fazer exercício físico. Mais para o fim, um grupo com cães a correr. Decerto analfabetos, a avaliar pela não leitura da placa a proibir os canídeos sem trela. Ou pelo desconhecimento da lei.
Nós.
Mistura-se tudo, junta-se temperatura primaveril e obtem-se um final de tarde perfeito no parque, a repetir.
Rita

segunda-feira, março 12, 2007

Uma peça das antigas

A fotografia não é das melhores, mas cá vai. Ou melhor, cá fica. Uma prenda de Natal antiga, para uns primos muito queridos.
Rita

quinta-feira, março 08, 2007

MULHER

Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas lutam por aquilo em que acreditam.
Elas levantam-se contra a injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando acreditam que existe melhor solução.
Elas andam sem novos sapatos para as suas crianças poderem tê-los.

Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando as suas crianças adoecem e alegram-se quando elas ganham prémios.
Elas ficam contentes quando ouvem sobre um aniversário ou um novo casamento.


Pablo Neruda
A "Mulher" na parede está na casa da Rita. Foi pintada por mim. Mostra-se hoje a lembrar o Dia Mundial da Mulher.

Ana Cristina




quarta-feira, março 07, 2007

Tarefas

Cá por casa andamos a descobrir as tarefas que podemos dar à Alice.
O «vai levar isto à mãe» é algo que já exercitamos há uns tempos mas que, convem dizer em abono da verdade, ela rege a seu belo prazer, como, quando e até onde entende.
Hoje experimentámos pela primeira vez o «desliga a televisão, neste botão». É óbvio que ela domina perfeitamente o acto e já conhece o dito botão há muito, mas a devida autorização ouvida em voz alta soou-lhe estranha e ficou a olhar-me, de dedo apontado, durante muito tempo, antes de se aventurar no mundo proibido até então.
A tarefa mais espectacular (para ela, entenda-se) deve ser «põe isto no lixo». É esta que a faz dispensar o resto de pão na mão para pedir um novo bocado logo a seguir. Ou não se importar de ficar com a mão entalada no cilindro de metal, só para conseguir abri-lo e meter a mão lá dentro...
De tudo, o mais engraçado é o ar satisfeito que essas pequenas autonomias lhe dão... a minha pequena miúda independente...
Algo me diz que terei de estar atenta ao que vai para ao lixo nos próximos tempos.
Rita

segunda-feira, março 05, 2007

Literalmente...

... uma filha debaixo das saias da mãe...
Ou... o que significa ter "pata de urso" (para as dúvidas que possam ter surgido no último post)...

Rita

domingo, março 04, 2007

Tango


Os pés despem os ténis, os sapatos rasos, as botas de montanha e as "pata de urso" e preparam-se para o treino.
O ensaio dura as horas possíveis, os músicos perguntam se querem que se repita um ou outro tango, os corpos exercitam todos os passos que recordam depois de tanto tempo de inactividade.
Horas mais tarde, as mesas estão cheias e a sala enorme está composta. Corpos e pés vestem os disfarces e rodopiam improvisadamente ao som maravilhoso da orquestra, gozando o momento. Palmas.
Os pés tornam a vestir o traje habitual, já doridos e arrependidos da falta de baile durante dias, meses, (anos?!) e rumam novamente para o carro que os levará a casa. Na boca um sorriso, no peito o suspiro de alívio.
Correu bem, como sempre.
Oficinas Ranha

quinta-feira, março 01, 2007