segunda-feira, março 26, 2012

Saudades de irmãos

Ontem a Alice ficou nos avós a curar a ligeira doença com que parece estar. Cá por casa ficou um mano muito saudoso. É a primeira vez que vejo a falta que ela lhe faz. Quando ele é o ausente, ela expressa a falta que sente dele e anda pela casa muitas vezes a aparentar não ter o que fazer. Até hoje, ele não o tinha feito. Desde ontem, a avaliar pela quantidade de vezes que já perguntou por ela, pelo facto de lhe ter feito menção pouco depois de acordar e assim que chegou a casa no final da tarde, vejo que deu mais um passo no sentido da aproximação à irmã mais velha. Hoje admitiu que tinha saudades e ontem ficou mesmo zangado quando percebeu que ela não iria regressar logo.

Vejo este amor a nascer de dia para dia e recordo-me da falta que a minha irmã sempre me fez quando me deixava sozinha. Com um sorriso nos lábios, lembro-me de quando, em miúda mas não assim tão pequenina, ela foi à Alemanha de férias e eu chorava durante a noite a cantarolar a canção do Chico Buarque, «Será que Cristina volta, será que Cristina fica por lá...»...

Rita

domingo, março 25, 2012

Um filho que sabe o que é "a fibra"?!

Não faço ideia se os Gatos Fedorentos colocam os seus cenários humorísticos sob o escrutínio dos filhos, mas se não o fazem, deviam.
Há uns dias reparei que o Vasco estacava a ver o último anúncio dos Gatos. Estava a brincar e imobilizava-se assim que eles começavam a falar, prova viva como tudo num anúncio deve ser estudado ao pormenor e tentar atingir o sucesso de fazer parar uma criança de dois anos.
Hoje, durante o telejornal, o Ricardo Araújo Pereira apareceu, numa rubrica sobre trabalhos que irá fazer no Brasil. O Vasco, enquanto comia a sopa, observou a reportagem e, de repente, disse: «Olha, aqui ele não está com a fibra, pois não?».
Será isto a prova de que tenho um filho atento ou de que tenho um filho que vê muita televisão...?!

Rita

sábado, março 17, 2012

terça-feira, março 13, 2012

Mais um ódio de estimação

Aqueles reconhecimentos de comentários com letras esquisitas que nos fazem reconhecer para, segundo eles, provarmos que não somos um robot.

Eu devo ser um bocado mecânica porque, invariavelmente, repito a operação umas três vezes por cada comentário que quero fazer...

Ana Cristina

quinta-feira, março 08, 2012

Invocação à mulher única

Tu, pássaro – mulher de leite! Tu que carregas as lívidas glândulas do amor acima do sexo infinito
Tu, que perpétuas o desespero humano – alma desolada da noite sobre o frio das águas – tu
Tédio escuro, mal da vida – fonte! Jamais… jamais… (que o poema receba as minhas lágrimas!...)
Dei-te um mistério: um ídolo, uma catedral, uma prece são menos reais que três partes sangrentas do meu coração em martírio
E hoje meu corpo nu estilhaça os espelhos e o mal está em mim e a minha carne é aguda
E eu trago crucificadas mil mulheres cuja santidade dependeria apenas de um gesto teu sobre o espaço em harmonia.
Pobre eu! Sinto-me tão tu mesma, meu belo cisme, minha bela graça, fêmea
Feita de diamantes e de cuja postura lembra um templo adormecido numa velha madrugada de lua…
A minha ascendência de heróis: assassinos, ladrões, estupradores, onanistas – negações do bem: o Antigo Testamento! – a minha descendência
De poetas: puros, selvagens, líricos, inocentes: o Novo Testamento – afirmações do bem: dúvida
(Dúvida mais fácil que a fé, mais transigente que a esperança, mais oportuna que a caridade
Dívida, madrasta de génio) – tudo, tudo se esboroa ante a visão do teu ventre púbere, alma do Pai, coração do filho, carne do Santo Espírito, amém!
Tu, criança! Cujo olhar faz crescer os brotos dos sulcos da terra – perpetuação do êxtase
Criatura, mais que nenhuma outra, porque nasceste fecundada pelos astros – mulher! Tu que deitas o teu sangue
Quando os lobos uivam e as sereias desacordadas se amontoam pelas prias – mulher!
Mulher que eu amo. Criança que eu amo, ser ignorado, essência perdida num ar de inverno…
Não me deixes morrer!... eu, homem – fruto da terra – eu, homem – fruto do pensamento – eu, homem – frutoo da carne
Eu que carrego o peso da tara e me rejubilo, eu que carrego os sinos do sémen e que se rejubilam à carne
Eu que sou um grito perdido no primeiro vazio à procura da Deus que é o vazio ele mesmo!
Não me deixes partir… - as viagens remontam à vida!... e porque eu partiria se és a vida, se há em ti a viagem muito pura
A viagem do amor que não volta, a que me faz sonhar do mais fundo da minha poesia
Com uma grande extensão de corpo e alma – uma montanha imensa e desdobrada – porque eu iria caminhando
Até ao âmago e iria e beberia da fonte mais doce e me enlanguesceria e dormiria eternamente como uma múmia egípcia
No invólucro da Natureza que és tu mesma, coberto da tua pele que é a minha própria – oh mulher, espécie adorável da poesia eterna!

por Vinicius de Moraes (in Antologia Poética)

quarta-feira, março 07, 2012

Hoje...

Apetecia-me ficar por aqui no aconchego do lar. Não queria ter de sair, daqui a pouco, para mais uma noite de dez horas de trabalho...

Quando falta inspiração para escrever coisas com algum interesse vêm-se ao blog escrever idiotices...

Ana Cristina

terça-feira, março 06, 2012

Sucessão de ideias

Ela, agora há pouco, ao jantar:
- Não se come e fala ao mesmo tempo.
O que deu origem à explicação que era o falar com a boca cheia que não devia ser feito... e depois sobre o porquê... e a razão de algumas regras que se praticam à mesa... e o perigo de confundirmos o nosso corpo e de enviarmos a comida para o canal onde é suposto respirar-se...
E ela, logo a seguir:
- Pois... porque se pode morrer... mas o pior é o cérebro porque é o cérebro que manda em tudo no nosso corpo, no que pensamos, no que dizemos, se nos portamos bem, se somos totós... tudo, é o cérebro que manda em tudo...
O que deu origem a nova conversa sobre o facto do cérebro até comandar coisas que fazemos sem nos apercebermos, como respirar, pestanejar («O que é pestanejar?!»), engolir.
E ela, logo no imediato:
- Não é bué fácil fazer o pino e cair em ponte a seguir?!


Rita

segunda-feira, março 05, 2012

O Vasco, de cor-de-rosa

Uma das pequenas grandes coisas que gosto na nossa família é a possibilidade de ter estas fotografias do Vasco. De asas de borboleta, de sapatos de salto alto, de saias brilhantes e coroas de papel cor-de-rosa. Sem qualquer tipo de stress ou constrangimentos ou preconceitos.

O Vasco é um pândegas. Gosta de tudo o que é festa, brincadeira e máscaras. Ainda por cima é um pândegas com uma irmã mais velha, toda feminina. Ele não é de todo feminino. Mas a par com as mascaradas de palhaço e as pinturas de bigodes, gosta de experimentar tudo o que por aqui anda que é diferente e que ela, a primogénita, gosta.

É óbvio que acho que temos sorte com ele, sempre disposto a festa. Por outro lado, não tenho dúvidas que ele também tem sorte connosco, por não ouvir uma série de patacoadas machistas e machonas sempre que quiser experimentar vestir-se com lantejoulas... tomara que ele também venha a concluir isso, quando lhe passar a raiva por nos ver a mostrar as fotografias aos seus amigos adolescentes...

Rita

sexta-feira, março 02, 2012

Uma das coisas que me chateia nesta coisa de ficar mais velha é a menor resistência às noites mal dormidas... Há duas noites dormi mal. Primeiro foi algo inexplicável, viravoltas na cama, insatisfação com a temperatura, um acordar constante a pensar que a noite estava ser tão longa e que o telefone de trabalho ainda iria tocar à conta disso... Depois foi o telefone de facto a tocar, quase uma hora a tentar dar início à resolução de uma situação... Depois foi o voltar para a cama, para mais viravoltas de olhos bem abertos... Depois foi o levantar da cama para tentar fazer algo que provocasse a chegada do sono, uma caneca de leite, um livro, uma manta e um banquinho na casa-de-banho aquecida; ao fim e ao cabo, é a única divisão da casa em que a luz acesa não perturba o sono dos restantes moradores da casa... Depois foi o regressar para a cama já sonolenta... o adormecer... para ter brutais pesadelos em que era uma qualquer outra mulher a ser perseguida por outra com um facalhão, que conseguia espetar no meu ombro, e eu a correr e a fugir, de respiração ofegante e sem voz, a correr por uma estrada e ela a agarrar-me e eu a conseguir soltar um grito... e a acordar com a palavra gritada em surdina e a sentir o quarto todo à escuro, só com a minha respiração alterada e o pai a dormir ao lado...

Para compensar, ontem adormeci no sofá antes das dez... e dormi a noite toda, já sem telefonemas, canecas de leite e correrias de fuga de uma louca assassina...

E hoje decidi escrevê-lo, só para contrariar os bocejos que já se me surgiam a seguir ao jantar. Agora, a esta hora, agora sim, vou recostar-me no sofá a ver uma qualquer série e deixar-me adormecer lentamente... mas vai ser uma batalha ganha com as minhas regras, às minhas horas, horas de uma mulher adulta, ora essa, e não de mais uma compensação de uma noite mal dormida...!

Rita