segunda-feira, novembro 15, 2010

A história de alguém

Hoje conheci o Sr. A.
Muito interessante, o Sr. A.
Eu gosto muito de pessoas. Acho mesmo que, de tudo o que mais gosto no trabalho, são as pessoas. Se não as tivesse todos os dias, com as suas vidas, as suas tristezas e alegrias, acho que me sentiria muito triste, muito desmotivada.
O Sr. A chegou de um país distante, onde reina o Sol e se fala uma língua igual à nossa, mas mais cantada. Tem a minha idade, mas veio já há praticamente dez anos. Faz parte de uma fratria de oito irmãos, ele era o terceiro e os seus primeiros empregos tinham sido aos 13 anos. Os pais trabalhavam muito e tinham pouco tempo para os filhos, aproveitando o que restava para lhes ensinar dignidade, mas poucos mimos. De tal forma que o Sr. A, quando veio, deixou lá uma filha de meses com a qual ainda não tinha aprendido a ser afectuoso. O carinho fazia-lhe vergonha, achava que toda a gente iria olhar e gozar com ele.
Só cerca de seis anos mais tarde é que o Sr. A conheceu verdadeiramente a filha. Ela juntou-se a ele por pouco menos de um ano, para regressar depois ao seu país. Problemas de saúde por tratar, os mesmos problemas que a vinda dele para Portugal tinha começado a ajudar a resolver. Nova tentativa um ano depois, após o nascimento de uma segunda criança. Ela pensava que vinha só conhecer o novo elemento da família, haviam-lho garantido. Mas a ideia era outra, era deixá-la ficar.
Mas foi tarde. Ela não queria ficar, não queria aquela família, queria a outra, a que era sua porque lha tinham dado, o país que era seu porque era onde a tinham deixado, a sua casa, a sua vida. Tudo lá. E foi tão infeliz e fez os seus de cá tão infelizes, que estarem juntos passou a ser um tormento só capaz de imaginar para quem ouve.
Há uns dias atrás, porque amar os filhos pode significar ter de abdicar delas, o Sr. A deixou-a ir, na feliz expectativa de reencontrar a felicidade noutros braços que não os seus.
Eu sou mesmo uma pessoa de pessoas. Ensinam-me sempre alguma coisa.
Rita

2 comentários:

Jorge Freitas Soares disse...

Uma história com muito para pensar, por vezes amar alguém é deixar esse alguém partir...

Aprendemos sempre com a vida Rita, sempre.

Jorge Soares

Oficinas RANHA disse...

O Sr. A está a aprender... a filha talvez vá ser muito mais feliz... e o Sr. A vai sentir que o facto de a ter deixado ir foi a melhor forma de lhe demonstrar o quanto a ama.

Esperemos, Ana Cristina