Ontem de manhã.
Pouco mais de duas horas no hospital, suspeita de uma conjuntivite na Alice.
Calor a mais, em todo o lado, totalmente impróprio para grávidas.
Grávida esquecida do calor que ali faz, com filha de três anos pela mão e com casaco dela, mala dela, cachecol dela, casaco da filha, camisola da filha, papéis das urgências para a oftalmologia e receita da oftalmologia no outro braço e mão.
Filha a desafiar a paciência da mãe a partir de determinada altura e a decidir fazer exactamente o oposto de tudo o que a mãe lhe diz para fazer.
Mãe a roçar a vergonha de que terceiros possam pensar que não dá educação à filha.
Médica das urgências: «Pronto, afinal era mesmo conjuntivite, nada de grave.» (ar de: pode-se ir embora, está tudo tratado, tem aqui a receita e pronto, é só pagar)
Mãe: «E posso deixá-la na escola?!» (é claro que não, já estou farte de saber disso, mas ok, uma pessoa faz-se de palerma)
Médica: «Ah, isto de facto é contagioso... mas isso depende dos infantários... há aqueles que fecham os olhos e aqueles que são mais picuinhas e não deixam os miúdos lá estar...»
Mãe, sem paciência nenhuma e com vontade de fazer «Dãa» à médica, mas a fingir muito bem uma paciência que não tem: «Ah, e a doutora passa uma declaração a dizer que não há problema nenhuma em deixá-la na escola?»
Médica: «Ah pois, não posso fazer isso, porque isto de facto é um bocadinho contagioso...» («Dãa»)
Mãe: «Pois doutora, mas sabe, se eu a deixar lá e depois me disserem para a ir buscar, eu não posso tirar dias para ficar com ela em casa...»
Médica, com ar de quem descobriu a América: «Ah, então eu passo-lhe uma declaração para ficar com ela...»
Mãe: «Pois, mas tem de ser naquele impresso próprio porque eu sou funcionária pública.»
Médica: «Não posso, sabe, não sou convencionada com a ADSE.»
Mãe: «Em relação a isso não há problema, eu também não tenho ADSE, tenho ..., preciso mesmo é da declaração nesse impresso se não não me aceitam os dias... não há problema, eu já levei o impresso daqui deste hospital.»
Médica: «Mas eu não sou convencionada pela ADSE, não posso passar...»
E teríamos ficado pela conversa de surdos se um outro médico, dentro das cortinas, mais informado (se não mais competente) não tivesse dito em voz mais alta que sim, que ela podia passar o impresso, que o hospital era convencionado e ela não precisava de ser, que no consultório privado é que não podiam se não fossem... Justificação da médica: «Ah, é porque no outro dia tive um casal a dizer que isto não lhes servia de nada...»
Como disse uma amiga da mãe, sorte a de não ter aparecido um casal a dizer: doutora, se daqui a uns dias aparecer uma mãe loira com olhos azuis a pedir um impresso destes, é para lhe cortar os pulsos...
Rita




























