Há mais ou menos três semanas, um amigo teve um acidente de carro.
Despistou-se, foi bater num poste de electricidade daqueles grandes, formados por dois pilares de cimento, e por lá ficou encaixado, até que os bombeiros o desencarcerassem. Teve uma paragem cardio-toraxica e ia morrendo. Teve um traumatismo craneano, com edema cerebral a recusar-se a ceder. Uma imensa possibilidade de lesões desconhecidas. Ficou em coma.
Durante este tempo, teve sempre no meu pensamento. Por trás de todas as coisas que fizesse e sentisse e me ocorressem. Não dormia bem, não andava bem. Ia vê-lo e sofria porque me sentia impotente e pequenina a olhá-lo, ligado a máquinas e com tubos por tudo quanto era lado. Ele era eu e todos nós, a vida na sua finitude e fragilidade a olhar-me de frente.
O meu amigo por afinidade, grande amigo do grande amigo que comigo partilha a vida. Um daqueles amigos que nos deixa a certeza de ser um grande amigo se precisarmos, que é o que basicamente faz de um amigo um amigo.
Hoje apertou-me a mão e acenou quando lhe disse quem era. Há dois dias quis saber as horas. Comeu sopa e mousse de chocolate. Mexeu as duas pernas e os dois braços. Acenou a dizer que está bem, que a luz não lhe faz confusão. Ainda não se sabe de nada, mas desse nada sei eu que voltaremos a mergulhar na piscina da Várzea ou no mar da Costa, a inventar jogos e expressões, a passear, a correr, a rir, a rir, a rir...
Quando penso nisto, não consigo deixar de ter vontade de chorar de felicidade.
Rita